Uma mulher que move o mundo

Ednéia Gonçalves

 

“Eu me vi nesse livro. E não tenho filhos, nunca a maternidade foi uma questão para mim.”

Ednéia Gonçalves

 

Amo As alegrias da maternidade, de Buchi Emecheta (Dublinense, 2018), porque esse livro ensina o quanto as mulheres africanas são complexas, completas e diversas. Sempre me incomodou a leitura simplista dessas mulheres como subalternas, incompletas, difusas, perdidas entre as várias esposas... Referenciadas a partir de sua relação com os homens.

As alegrias da maternidade

 

Esse livro fala de maternidade, mas como uma das possibilidades e facetas dessa identidade feminina multifacetada. Fala da maternidade como uma das manifestações do sagrado e questiona esse sagrado. Fala de questionamento, de contestação. São mulheres muito fortes, e a maternidade é uma das manifestações dessa força, uma possibilidade de discutir papeis.

Eu me vi nesse livro. E não tenho filhos, nunca a maternidade foi uma questão para mim. Quando vi o título, pensei: “Que alegria é essa de que ela está falando?”. Lendo, percebi que a autora fala da possibilidade de ser feliz num lugar onde exigem muito da mulher, do seu lugar de reprodutora, mas também onde ela pega tudo isso e transforma em poder. É justamente essa complexidade das mudanças que a personagem nos apresenta.

É um livro que você lê e quer ler mais, acontece muita coisa nessa história, todas as personagens são difíceis, a vida na África é difícil, mas lendo o livro percebemos que, no meio dessa dificuldade toda, tem muita alegria, tem muita beleza, e, sobretudo, complexidades, subjetividades impensadas.

Esse livro desconstrói a falsa simplicidade com que o continente africano é representado no Brasil, e que me incomoda muito: como podemos pensar que a África é uma só? Um continente com 54 países com ideias unas? Não. São várias, assim como são várias as possibilidades de vivenciar o feminino e de viver ou negar a maternidade. É uma viagem para o desconhecido.

O livro aborda colonialismo e decolonialismo, uma discussão essencial para refletir sobre relações de gênero, raciais e econômicas na África. Não tem como pensar as mulheres africanas sem notar o papel da economia em suas vidas e o quanto esse papel é determinante para as identidades, as culturas, a responsabilidade de fazer a economia e a vida girarem.

Só de ver esse livro eu já fico feliz. Eu me apeguei a ele. A personagem principal é uma mulher tão incrível, tão incrível... Ela toma todas as decisões, uma sequência de decisões que vão levando a história para outros lugares. Nnu Ego é uma mulher que move o mundo.

 

Ednéia Gonçalves é socióloga e educadora. Atua na formação de gestoras e professoras, principalmente da EJA (Educação de Jovens e Adultos), no Brasil e em diferentes países do continente africano. É coordenadora da ONG Ação Educativa.

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